quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

"Quem não concorda comigo... está contra mim."

Aquilo em que cada pessoa acredita fá-la comummente integrar-se em grupos que acreditam no mesmo que ela. Esta integração é benéfica porque permite partilhar com outros ideias similares, bem como ampliá-las e enriquecê-las. Isto é satisfatório, une as pessoas.

A dificuldade está na atitude do grupo em relação ao que é exterior a ele, e considerado uma ameaça ao seu narcisismo ou à validação da sua existência como grupo.

Leia-se que a atitude do grupo dependerá da dinâmica dos sujeitos que o compõem. E é assim que vemos desfilar, em quadrantes vários, pessoas a defenderem versões que parecem incompatíveis, que defendem estar do lado da clarividência, e que, do outro lado, claro, estão as pessoas destituídas de juízo e capacidade de reflexão consciente e próxima do que é obviamente irrefutável.

E são estas posições que levam à guerra entre grupos, entre pessoas. São estas posições sem diálogo cooperante, que não nos permitem resolver com proveito mútuo.

Estará este fenómeno relacionado com as personalidades que lideram os grupos? Será um fenómeno pela afirmação por medo de perder a identidade?... Talvez por aqui.

12 de novembro de 2017
Dora Bicho

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Psicoterapia

Uma psicoterapia serve para pensar.

Em nós, e no que vai dentro de nós. Nos outros, e nas relações que estabelecemos.

Serve para investigar, analisar, apreciar (ou não)... o nosso modo, e o modo de outros.

No decorrer de uma psicoterapia dedicamo-nos a identificar, clarificar, e refletir o que se passa em nós. Tentamos olhar para os nossos medos e tratá-los por tu. É uma aventura. Um desafio. Um espaço de crescimento em que as palavras se soltam numa tentativa de representar sensações, relações...

A palavra é rainha. E nada seria sem o silêncio.

Integramos o que somos na forma como nos relacionamos, nas nossas ambições, nos nossos receios, e na nossa história.

Planeamos o futuro. Saboreamos o presente. Integramos o passado.

Se é difícil? Dependerá...
A noção do que somos e daquilo de que somos feitos, dá-nos a alegria de saber como funcionamos e a liberdade de escolher por onde caminhamos.


Dora Bicho

domingo, 18 de novembro de 2018

A Crise Como Oportunidade

A ideia de que "As Crises são Simultaneamente Novas Oportunidades" é uma Perspectiva Comummente Aceite no Âmbito da Intervenção Psicológica.
Esta ideia em psicologia não é fantasia, ironia ou sadismo. É uma ideia que não pretende promover a crise mas antes aproveitá-la como momento e movimento propulsor de mudança. Porque as fases de crise são fases de maior desequilíbrio e fragilidade que desestabilizam o modo habitual de estar na vida, podem levar a mudanças maiores, para melhor ou para pior. Se oportunamente aproveitadas, de forma construtiva, poderão ser oportunidades de mudança benéficas para o próprio.
Não significa isto que se prescrevam crises como bons remédios para mudar de vida. Nem que uma crise signifique obrigatoriamente um rejuvenescimento pessoal. Nem que momentos críticos de particular sofrimento sejam circunstâncias apetecíveis
É no entanto verdade que, quando uma pessoa se vê imersa numa situação de crise, para além de poder passar por um rol de emoções intensas, sente a sua vida desequilibrada. Perante uma situação de crise pessoal, familiar, profissional, ou outras, o projecto de vida até então sonhado é posto em causa, surgem dúvidas sobre a correcção das escolhas feitas e o que poderia ter sido feito de diferente para evitar o desfecho ou desfechos anteriores. Dada a impotência sentida perante a força das adversidades em causa, surgem dúvidas sobre se vale a pena lutar quando o Universo é tão injusto, e sobre se se pode acreditar quando inesperadamente surgem circunstâncias tão negativas. As escolhas feitas no passado são postas em causa e surgem dúvidas sobre a própria habilidade para escolher os melhores caminhos e agir da melhor forma. Questiona-se o futuro e o que se quer e é possível fazer daí em diante. Há portanto maior fragilidade pessoal, um desequilíbrio em relação à rotina anterior, e dúvidas sobre o futuro.
E este desequilíbrio, devido a uma ou várias circunstâncias, simultâneas ou espaçadas ao longo do tempo, se oportunamente “agarrado” com convicção, pode ser um momento chave para um novo equilíbrio, conseguido, porque a crise provocou um abalo desestabilizador e possibilitou novo ajuste e perspectiva sobre a vida (à qual acresce o acontecimento de crise mais recente).
Dora Bicho – Novembro 2015

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Algumas Notas Sobre Depressão



A depressão corresponde a um arrastamento do desânimo. À ausência de esperança. À carência de sentido. À falta de forças e ânimo; de alegria, de sentido para usufruir da vida.

Corresponde essencialmente a um abaixamento da pressão, entendida como diminuição da força anímica para usufruir da vida.
Ao medo do sentir.

Associa-se ao entristecer legítimo. Que no entanto ultrapassa a tristeza causal, transformando-se em tristeza multidimensional.

Relacionados com a depressão estão também as estratégias de fuga e negação da mesma, porque sentida como potencialmente perigosa. Seja pelo recurso à adição, ou pelo recurso à reacção hiperativa e "maníaca."

É frequente que a depressão surja apenas quando há “espaço mental” para ela, quando ela aparenta ser menos perigosa.

A depressão é um sentir interno, um ponto de vista; com raízes próprias. Requer cuidado, atenção, disponibilidade, perspicácia e tempo.

Dora Bicho – Fevereiro 2016
http://campopsicologico.blogspot.com/




domingo, 17 de setembro de 2017

Conhecimento empobrecido


De tanto querer tudo controlar, o acesso ao conhecimento vem sendo empobrecido

Sendo nós bastante curiosos, quisemos desmontar e explicar ao pormenor.

Observámos, descrevemos, e investigámos.

Experimentámos, simplificámos,  esquematizámos, catalogámos e agrupámos.

Também o fizemos em relação às pessoas, e em relação ao seu comportamento.

Simplificando os conhecimentos adquiridos, criaram-se tabelas que incluiriam os males psíquicos da humanidade.

E passámos a encaixar nestas tabelas, à força,  tudo o que parecia fugir ao que se instituiu como sendo a normalidade.

Ganhámos muito com isso.  Mas de tanto catalogar, marginalizamos pessoas em sofrimento.

Esquecemos  o seu sentir, a riqueza da pluralidade do ser humano, a complexidade da sua dinâmica e referimo-nos às pessoas como se fossem objetos.

Virámos costas à diversidade. E distanciámo-nos dessa característica fundamental à possibilidade de enriquecimento  humano.

Para que tudo encaixe na engrenagem que temos montada em sociedade as crianças não podem fazer "birras", devem permanecer em sala de aula sossegadas, dedicar a sua vida ao estudo competitivo, seguir os pais na devoção ao trabalho competitivo, e ter uma atitude ativa, assertiva e sorridente.

O que não couber nisto é uma perturbação ou patologia psicológica.

O que é redutor e estigmatizante

Um percurso no conhecimento sobre o ser humano que vai ficando empobrecido.

Dora Bicho

17 de setembro de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Num mundo de possibilidades... tentando ajudar o acaso

Tudo começa cedo... É o primeiro contexto!

Estão os pais preparados? Sentem-se e assumem-se como adultos autónomos?
Há tempo físico para os cuidados ao bebé?
Disponibilidade mental? A família permite que sejam os pais a assumir a parentalidade?

E os medos dos pais? Os desejos?
Aquele bebé vem preencher um vazio existencial? Transformar-se-á em ornamento destinado a satisfazer a vaidade dos pais?
Tem direito a uma existência autêntica, para além do desejo da família?

Só à partida, logo nos primeiros anos, e até mesmo antes de o pequerrucho ser concebido, temos um enorme mundo de possibilidades.

Mais ou menos ansiado, mais ou menos planeado, eis que surge o senhor bebé!  Atento às distintas sensações, e em contínuo desenvolvimento.

Valerá a pena planear o nascimento de um filho? Preparar a família? A casa? O espírito?  Tirar um curso intensivo sobre parentalidade?

Se puder... Vale a pena.
Mas nada garante que tudo seja perfeito.

Porque os pais trazem consigo as suas próprias dinâmicas pessoais.
Porque as crianças têm características específicas.
Porque a vida não é perfeita - ou se calhar até é, se considerarmos que é a imperfeição que traz valor à perfeição.
Porque no dia a dia da vida de todos nós, nem tudo pode ser programado.
Porque a noção do que é perfeito é subjetivamente muito distinta.

Então que fazer? Como é isso de ser pai e mãe?  Como garantir que estou a agir da melhor forma?
Bem, de entre todas as dicas a que já teve acesso, e que lhe podem ser úteis, aqui fica uma seleção de convictas orientações:

1. A vida do seu filho não depende só de si, e beneficia em conhecer outras pessoas, outros modelos, outras conversas. Contudo, fique certo, você é fundamental.

2. Proteja-o de males maiores. Tanto quanto lhe for possível. Da melhor forma que lhe for possível. Ao seu jeito. Mas não desista de o proteger.

3. Tenha uma vida. A sua. Se fizer da existência do seu filho, a sua própria existência, estará a aprisiona-lo de forma permanente.

4. Deixe-o experimentar. Não faça tudo por ele. Ele precisa experimentar para saber como se faz. Precisa saber que é capaz, e que para saber fazer, é preciso não ter medo de errar.

5. Não minta. Dentro do possível, não minta. Faça isso. Os seus filhos vão-lhe agradecer.

6. Tenha presente que as crianças precisam de orientação. Porque estão a aprender a lidar com os outros, a lidar consigo mesmas… a lidar com tudo o que as rodeia. Elas desconhecem muitas das regras de conduta que regem o mundo dos adultos.

7. Tenha também presente que embora menos sabedoras sobre os códigos dos adultos, elas são um universo de distinta sabedoria em todos os órgãos dos sentidos a que podem aceder. Por isso, ouça as suas crianças.  Ouça mesmo.

8. Mesmo tomando em consideração tudo aquilo que já leu, viu e ouviu - que por vezes não coincide - confie no seu instinto. Desde que o seu instituto não diga que o seu filho é mau e tem de ser castigado em conformidade.

9. Acredite, não há crianças más. Há crianças aflitas, crianças desesperadas, crianças que não sabem como respeitar os outros, crianças que precisam de ajuda. Mas não há crianças más.

10. Não tenha medo de se por em causa. Não existem pais perfeitos, nem regras de educação universalmente adequadas.  Portanto, está garantido.  Você não é perfeito.

11. Esteja presente. Mostre ao seu filho que ele é importante.

Já agora, não leve a mal esta minha sugestão:  leia também o artigo "Pais de sonho." E obrigada pela paciência.

Dora Bicho

24 de julho de 2017

A auto-crítica

Persegue. Entranha-se.
É um modo de estar.
Sem que o próprio tenha disso, sequer, alguma compreensão.

Alguma coisa correu mal?
A culpa é, logo à primeira vista, provavelmente sua.

Foram injustos ou antipáticos para si?
Provavelmente porque não fez por ser tratado com justiça ou porque não suscita simpatia.


Não consegue encontrar trabalho?
A culpa é sua.
Fizeram-lhe uma crítica?
A culpa é sua.

Os outros são perfeitos, claro!
Você não.

E porque está rodeado de gente desejosa de ter a quem culpar, para assim poder explorar, é fácil confirmar a justiça de tanta crítica, nesta sua atitude auto-culpabilizadora.


Dora Bicho – Abril 2016